Consumo de medicamentos aumenta na pandemia

Especialista analisa os riscos da automedicação e faz alerta sobre a busca por orientações acerca dos medicamentos na internet

Um dos setores da economia que tem obtido bons resultados na pandemia é o farmacêutico. Segundo uma pesquisa do Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o segmento cresceu 16,2% no Brasil nos últimos 12 meses. Ao apontarem para um aumento significativo do consumo de medicamentos no país, esses números acendem um alerta sobre o consumo excessivo e imprudente desses produtos por parte da população.

Com a pandemia, surgiram vários tratamentos alternativos que, mesmo sem nenhuma comprovação científica, foram difundidos nas redes como eficazes contra o coronavírus. Para a professora da disciplina de Farmacoterapia e Cuidado Farmacêutico no Centro Universitário Newton Paiva , Cristiane de Paula Rezende, a pandemia apenas acelerou um fenômeno que já estava em andamento.

“Os indivíduos estão cada vez mais sanando suas dúvidas a respeito dos tratamentos e medicamentos na internet. Tal fato é preocupante, uma vez que, apesar de existirem bons conteúdos a cerca dessas temáticas, os pacientes, na maioria das vezes, são leigos e têm dificuldade de julgar se os conteúdos acessados por eles são de boa credibilidade ou não”, afirma ela.

Automedicação

Apesar da existência de um certo tabu em torno da automedicação, ela é considerada uma prática de autocuidado, que é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, sintomas leves como dor de cabeça eventual ou cólica menstrual podem ser tratados pelo paciente. Por isso, existem os Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs), recomendados pelas autoridades sanitárias para tratar os sintomas associados a condições de saúde autolimitadas, como os citados acima.

No entanto, os especialistas alertam para a existência de riscos. Cristiane destaca três situações principais as quais o paciente deve ficar atento: a persistência dos sintomas após a utilização dos MIPs; o consumo de um MIP e os medicamentos de uso habitual do paciente, de forma simultânea, pois existe o risco deles interagirem entre si e, consequentemente, poderem se anular ou até mesmo prejudicar o paciente; e, por fim, o risco do MIP agravar outras doenças pré-existentes. Em todos esses casos, é importante consultar o farmacêutico ou o médico.

Consulta ao farmacêutico

Apesar de ser uma prática tradicional no Brasil, a prescrição de remédios por parte dos profissionais farmacêuticos só foi regulamentada em 2013, por meio da resolução 586 do conselho federal de farmácia. Todos os medicamentos que se enquadram na lista de grupos e indicações terapêuticas presentes no documento podem ser prescritos pelos farmacêuticos. Para isso, esses profissionais devem realizar uma consulta farmacêutica e avaliar a condição de saúde do paciente para garantir que a melhor conduta clínica seja adotada.

Neste sentido, Cristiane faz um alerta às pessoas que vão procurar orientações em farmácias e drogarias. “No Brasil, muitos atendentes de farmácia incentivam o consumo de medicamentos pelos pacientes sem atentar para a real necessidade desses indivíduos. Tal fato decorre, principalmente, por esses atendentes não possuírem formação adequada em saúde e trabalharem por comissão”, explica a professora da Newton Paiva.

“Portanto, quando os pacientes necessitarem de indicações terapêuticas é imprescindível que esses certificam que estão sendo atendidos de fato pelo farmacêutico. Esse profissional de saúde possui o conhecimento técnico para prescrever um medicamento adequado às necessidades do paciente, ou até mesmo encaminhá-lo a outro profissional de saúde”, finaliza a especialista.