Especialistas alertam para despesas acima do teto, baixa perspectiva orçamentária e falta de critérios na alocação de recursos em 2026

O setor hospitalar brasileiro está diante de uma conta que, a cada ano, parece ficar mais difícil de fechar. Enquanto a necessidade de financiamento da saúde cresce 3,9% ao ano, o arcabouço fiscal do país limita a expansão orçamentária a apenas 2,5% anuais. Esse descolamento, identificado pela Instituição Fiscal Independente (IFI), não é conjuntural, mas estrutural, alerta a Federação Brasileira de Hospitais (FBH), e já se materializa em um déficit estimado de R$ 10 bilhões, necessários para manter o funcionamento adequado do Sistema Único de Saúde (SUS) em 2025.

“Não é apenas falta de recursos, é também ineficiência na alocação”, afirma Anis Ghattás Mitri Filho, presidente da Associação dos Hospitais do Estado de São Paulo (AHOSP). Ele lembra que, no país, mais de 50% dos 4.500 hospitais privados prestam serviços de saúde pelo SUS.

Entre as falhas na alocação de recursos, o presidente da AHOSP chama atenção para os dados do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), que destacam que quase metade da expansão recente do orçamento do SUS foi absorvida por emendas parlamentares, reduzindo o planejamento nacional e a coordenação técnica das políticas públicas.

“Como a decisão passa a ser política, o resultado dessa tempestade se manifesta na ponta, com alta ocupação hospitalar, filas intermináveis de cirurgias eletivas, emergências sobrecarregadas e um modelo assistencial focado em volume que mostra sinais claros de esgotamento”, alerta Mitri Filho.

Neste cenário, outra importante inimiga contribuiu ainda mais para o caos financeiro. “A ineficiência operacional pode consumir até 20% do orçamento disponível dos hospitais, que já é limitado. É dinheiro que se perde em retrabalho, desperdício e gestão inadequada; enfim, recursos que poderiam salvar vidas, mas evaporam em processos obsoletos”, complementa o presidente da AHOSP.

Eficiência como estratégia 

Diante do cerco orçamentário, hospitais que adotaram práticas de gestão baseadas em valor conseguiram resultados expressivos em 2025. A implementação de sistemas de classificação por Grupos de Diagnóstico Relacionados (DRG), protocolos de alta segura e gestão rigorosa do tempo de permanência hospitalar permitiram reduções de 15% no tempo médio de internação, queda de 22% nas reinternações e aumento de até 30% no giro de leitos.

Performance hospitalar não nasce do acaso. Ela nasce de gestão qualificada, união institucional e coragem para mudar”, ressalta Mitri Filho. 

Ano eleitoral

O cenário se torna ainda mais complexo quando se considera o contexto político. “2026 não será um ano comum. Será um ano eleitoral, político e de forte disputa orçamentária. E, historicamente, a saúde sempre foi tratada como moeda, nunca como estratégia”, alerta o presidente da AHOSP.

Para Reginaldo Teófanes, presidente da Federação Brasileira de Hospitais (FBH), o momento exige posicionamento técnico e institucional robusto. “Ou o setor se organiza, se posiciona e se fortalece institucionalmente, ou continuará reagindo a decisões baseadas no jogo político”, afirma o dirigente.

Ainda segundo Teófanes, a pressão fiscal insustentável, aliada ao descompasso entre necessidades reais e limites orçamentários, exige do setor hospitalar uma resposta coordenada. “Não se trata mais de defender apenas mais recursos. É preciso que estes recursos cheguem, com critérios técnicos, para quem de fato precisa”, complementa. 

Por Felipe Nabuco 

Visão Hospitalar