Interoperabilidade avança, mas pequenos hospitais alertam para risco de asfixia digital

Exigência de investimentos em tecnologia expõe fragilidade financeira de mais de 2 mil hospitais privados de pequeno porte

É comum associar a saúde suplementar brasileira aos grandes centros de excelência da Avenida Paulista ou do Leblon, mas a fotografia real do setor é outra. Segundo dados do Cenário dos Hospitais no Brasil 2024, mais da metade dos estabelecimentos privados do país possuem até 50 leitos. São hospitais que, em sua maioria, estão localizados no interior, operam com margens estreitas e enfrentam dificuldades estruturais básicas, que vão da conectividade precária à dependência de prontuários físicos.

 

Enquanto o Comitê de Padronização das Informações em Saúde Suplementar (Copiss) da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) avança com normas que reforçam a interoperabilidade e a troca de dados em tempo real, parte significativa da rede hospitalar privada ainda luta para digitalizar processos elementares.
Em abril de 2026, o setor chega a um ponto de inflexão: o custo da adequação tecnológica pode se tornar novo fator de insolvência para instituições que já operam no limite financeiro.

 

Regulação versus viabilidade econômica

O debate sobre interoperabilidade é frequentemente tratado como questão técnica. Mas, para os pequenos hospitais, trata-se de CAPEX, investimento em capital.
Implementar o padrão TISS em tempo real não significa apenas contratar um software.

 

Exige infraestrutura de rede estável, servidores seguros, integração com operadoras, sistemas de prontuário eletrônico robustos e treinamento contínuo de pessoal. Em muitas instituições do interior, o orçamento disponível após a folha de pagamento e a aquisição de
insumos básicos é residual.

 

A norma regulatória parte do pressuposto de que o hospital já possui um prontuário eletrônico estruturado. Para dezenas de instituições, o prontuário físico permanece como alternativa de “custo zero”. Nesses casos, a exigência digital funciona como uma barreira de entrada indireta, não por incapacidade técnica, mas por limitação financeira.

 

Consultorias especializadas estimam que o investimento mínimo para um hospital analógico atingir o nível básico de interoperabilidade pode consumir de três a seis meses de faturamento bruto.

 

O risco da concentração silenciosa

O Brasil possui aproximadamente 4.500 hospitais privados. Cerca de 50% têm até 50 leitos. Entre eles, estima-se que menos de 30% operem com sistemas de gestão totalmente integrados.

 

A consequência possível não é apenas atraso tecnológico, mas exclusão de rede. Há, entre gestores hospitalares, o receio crescente de que falhas na interoperabilidade passem a ser utilizadas por operadoras como justificativa para descredenciamento, reduzindo custos e concentrando contratos em grandes grupos hospitalares já digitalizados.

 

O efeito sistêmico pode ser perverso: fechamento de unidades de pequeno porte em cidades médias e interioranas, aumento de vazios assistenciais e sobrecarga de polos regionais. A interoperabilidade, concebida como ferramenta de integração, pode acabar operando como mecanismo de seleção econômica.

 

A posição institucional

 

Entidades representativas defendem a modernização, mas alertam para o risco de descompasso entre norma e realidade. “Não se faz saúde digital com contas no vermelho. A Federação Brasileira de Hospitais (FBH) apoia a modernização, mas não aceitaremos que a tecnologia seja usada como uma guilhotina para os pequenos hospitais, que são a espinha dorsal do atendimento em milhares de municípios brasileiros. A interoperabilidade deve vir acompanhada de linhas de crédito subsidiadas e prazos realistas, respeitando a heterogeneidade do nosso parque hospitalar”, frisa o presidente da Associação dos Hospitais do Estado de Goiás (AHEG), Adelvânio Francisco Morato.

 

Gestores de hospitais de pequeno porte relatam que, na prática, sobra pouco ou nenhum recurso mensal para investimentos estruturantes. A conectividade em regiões afastadas ainda é instável. Softwares hospitalares muitas vezes têm precificação indexada à moeda estrangeira, pressionando ainda mais o caixa.
Além disso, as operadoras já exigem envio digital de contas dentro do padrão TISS para processamento mais rápido. O hospital que não consegue atender ao formato digital enfrenta atrasos ou glosas, criando um círculo vicioso: a falta de tecnologia dificulta o recebimento, e a falta de recebimento impede o investimento em tecnologia.

 

Há uma terceira via?

 

Especialistas em tecnologia da saúde defendem soluções modulares e escalonadas, com implementação por fases e uso de infraestrutura em nuvem para reduzir o custo inicial. Ainda assim, a transição raramente é de baixo impacto financeiro.

 

“O ponto central permanece. Sem políticas de financiamento específicas, a digitalização compulsória pode aprofundar desigualdades dentro do próprio setor privado”, complementa Morato.

 

O que está em jogo

 

A interoperabilidade é essencial para a transparência, a segurança assistencial e a eficiência administrativa, mas a transição precisa considerar a heterogeneidade do parque hospitalar brasileiro.

 

“Em milhares de municípios, o pequeno hospital privado é a única alternativa ao Sistema Único de Saúde (SUS). Fragilizá-lo por asfixia digital pode produzir efeito contrário ao pretendido: menos integração e mais concentração”, conclui o presidente da AHEG.

 

Por Felipe Nabuco
Visão Hospitalar