Durante a Hospitalar 2026, ex-ministro da Saúde lançou obra autobiográfica e apresentou propostas para modernização do sistema de saúde
A Hospitalar 2026 reuniu líderes, gestores, profissionais e empresas de toda a cadeia da saúde para discutir os rumos do setor no Brasil. Durante o evento, o médico cardiologista e ex-ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, participou do lançamento de seu livro autobiográfico, “Eu venho lá do sertão: o sertanejo que nasceu na praia”, e apresentou o pré-lançamento da obra “Desafios para saúde pública do Brasil: eficiência, organização e gestão para um sistema que funcione”.
Em entrevista à Revista Visão Hospitalar, Queiroga falou sobre os desafios estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS), a necessidade de modernização dos modelos de remuneração, o papel dos hospitais de pequeno porte e os impactos da transformação digital na assistência. Confira a entrevista:
Revista Visão Hospitalar – Essa é a sua primeira visita à feira? Qual a sua avaliação da Hospitalar 2026?
Marcelo Queiroga – A Hospitalar é um dos principais encontros da saúde na América Latina e demonstra a dimensão econômica e social do setor. A saúde representa cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e tem um papel estratégico não apenas na assistência à população, mas também na geração de empregos, no desenvolvimento tecnológico e no estímulo a novos negócios. Eventos como este fortalecem o ecossistema da saúde e contribuem para o crescimento do país.
Revista Visão Hospitalar – O senhor aproveitou a feira para lançar duas obras. Qual é a proposta de cada uma delas?
Marcelo Queiroga – O primeiro livro, “Eu venho lá do sertão: o sertanejo que nasceu na praia”, tem caráter autobiográfico. Nele relato minha trajetória pessoal e profissional, destacando a influência das minhas origens sertanejas e dos valores familiares na formação da minha visão de mundo e da minha atuação na medicina. Já o segundo livro, “Desafios para saúde pública do Brasil: eficiência, organização e gestão para um sistema que funcione”, traz uma reflexão sobre os principais obstáculos enfrentados pelo sistema de saúde brasileiro e apresenta propostas voltadas à melhoria da gestão, da eficiência e do acesso à assistência.
Revista Visão Hospitalar – Na sua avaliação, qual é o principal desafio da saúde pública brasileira atualmente?
Marcelo Queiroga – O maior desafio é ampliar o acesso qualificado da população aos serviços de saúde, especialmente na atenção especializada. O Brasil possui um sistema universal importante, mas enfrenta dificuldades para garantir atendimento oportuno e resolutivo em diversas regiões. Para avançar, é necessário promover reformas estruturais que permitam maior eficiência na utilização dos recursos disponíveis e melhor organização da rede assistencial.
Revista Visão Hospitalar – O senhor tem defendido uma revisão dos modelos de remuneração da saúde. O que precisa mudar?
Marcelo Queiroga – Precisamos evoluir para modelos que valorizem resultados assistenciais e eficiência. O sistema brasileiro ainda carrega estruturas de remuneração que foram concebidas em um contexto muito diferente do atual. Diversos países que possuem sistemas universais de saúde já passaram por processos de modernização semelhantes, incorporando conceitos de remuneração baseada em valor (value-based healthcare). O objetivo é alinhar financiamento, qualidade assistencial e desfechos clínicos. Essa transição exige planejamento, diálogo e participação de todos os atores do setor, incluindo gestores públicos, prestadores de serviços, hospitais e entidades representativas.
Revista Visão Hospitalar – Por que essa transformação é tão complexa?
Marcelo Queiroga – Porque não se trata apenas de atualizar valores ou procedimentos. É uma mudança de modelo. A discussão precisa considerar financiamento, governança, indicadores de desempenho e mecanismos de avaliação de resultados. Além disso, é fundamental construir consensos e desenvolver uma cultura voltada à geração de valor para o paciente e para o sistema de saúde como um todo.
Revista Visão Hospitalar – Qual é o papel dos hospitais nessa discussão?
Marcelo Queiroga – Os hospitais são protagonistas. A construção de novos modelos de remuneração e organização assistencial precisa contar com a participação ativa das instituições hospitalares. Os desafios enfrentados pelos hospitais brasileiros demonstram que o sistema atual possui limitações. Por isso, é necessário construir soluções de forma colaborativa, buscando maior sustentabilidade e melhores resultados assistenciais.
Revista Visão Hospitalar – Como o senhor avalia o avanço da inteligência artificial na saúde?
Marcelo Queiroga – A inteligência artificial representa uma transformação importante para a medicina e para a gestão dos serviços de saúde. Seu potencial é enorme, tanto no apoio ao diagnóstico quanto na tomada de decisões clínicas e administrativas. Entretanto, a transformação digital precisa considerar as diferentes realidades existentes no país. Ainda há milhares de instituições com limitações estruturais e tecnológicas significativas. Portanto, o processo de modernização deve ocorrer de forma gradual e planejada.
Revista Visão Hospitalar – E os hospitais de pequeno porte? Qual deve ser o futuro dessas unidades?
Marcelo Queiroga – Esse é um tema central. Muitos hospitais de pequeno porte enfrentam dificuldades para alcançar elevada capacidade resolutiva. Precisamos discutir novos modelos de inserção dessas unidades na rede assistencial, valorizando vocações regionais e fortalecendo sua integração com os demais níveis de atenção. O gestor público tem papel fundamental na indução dessas mudanças, garantindo que cada unidade possa contribuir da melhor forma para o atendimento da população.
Revista Visão Hospitalar – Seu livro autobiográfico também destaca suas origens no sertão paraibano. De que forma essa experiência influenciou sua trajetória?
Marcelo Queiroga – A influência foi profunda. Embora tenha nascido em João Pessoa, minha família tem raízes no sertão da Paraíba. Cresci ouvindo histórias de superação, trabalho e perseverança. Esses valores me acompanharam ao longo da vida profissional e foram determinantes em momentos desafiadores da minha trajetória. O livro procura mostrar justamente como essa herança cultural e familiar ajudou a moldar minha visão sobre liderança, serviço público e medicina.
Por Felipe Nabuco
Equipe Visão Hospitalar
Crédito: Vagner Oliveira/Viva+ Comunicação.