Segurança em cirurgia cardíaca entra no centro do debate após aumento de mortes em procedimentos eletivos

Novo Manual da ONA busca fortalecer protocolos assistenciais e reduzir eventos evitáveis em uma das áreas mais complexas da medicina

 

O Brasil registrou 1.224 mortes após cirurgias cardíacas eletivas em 2025, o maior número da última década. O dado, extraído do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS), acende um alerta sobre a necessidade de fortalecer protocolos assistenciais e aprimorar a organização do cuidado em uma das áreas mais sensíveis da assistência hospitalar.

 

Entre os anos de 2016  e 2025, o Brasil registrou 9.487 mortes após cirurgias cardíacas eletivas em adultos (média anual de 949 mortes). Em 2025, o número saltou para 1.224 (aumento de 29%), segundo dados do Ministério da Saúde (SIH/SUS). Esses dados representam uma média de 6,3% na mortalidade hospitalar e de 11,2 dias no tempo de internação em cirurgias cardíacas eletivas no país. Indicadores modificáveis que merecem atenção, mas que, infelizmente, permanecem iguais há mais de dez anos. 

 

Embora os avanços tecnológicos tenham ampliado a capacidade de diagnóstico e tratamento das doenças cardiovasculares, especialistas alertam que a segurança do paciente continua dependendo de fatores que vão além do ato cirúrgico. A eficiência da triagem, a integração entre as equipes, a organização dos fluxos hospitalares e o monitoramento pós-operatório seguem sendo determinantes para os resultados clínicos.

 

Nesse contexto, a Organização Nacional de Acreditação (ONA) lançou o novo Manual de Certificação para Serviços de Cirurgia Cardiovascular, documento que estabelece critérios e protocolos voltados à qualificação da assistência e à redução de falhas evitáveis ao longo de toda a jornada do paciente.

 

Para a gerente-geral de Operações da ONA, Gilvane Lolato, a adoção de práticas padronizadas representa uma oportunidade de fortalecer a cultura de segurança nas instituições de saúde.

 

“O lançamento deste manual representa um avanço importante para a segurança do paciente. Ao estruturar protocolos desde a admissão até o acompanhamento pós-operatório, é possível reduzir riscos, qualificar processos e melhorar os resultados assistenciais”, afirma.

 

Segundo especialistas envolvidos na elaboração do documento, um dos principais desafios está na capacidade de identificar rapidamente pacientes com maior gravidade e garantir que o tratamento ocorra dentro do tempo adequado. A demora na definição da conduta terapêutica ou na realização do procedimento pode comprometer significativamente os desfechos clínicos.

 

“Em cirurgia cardíaca, cada etapa influencia diretamente o resultado. Quando o paciente possui indicação cirúrgica, é fundamental que exista uma avaliação eficiente e uma preparação adequada para que o procedimento aconteça no momento correto”, explica Omar Asdrubal Vilca Mejia, professor de Cirurgia Torácica e Cardiovascular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

 

O manual também chama atenção para a importância da integração entre diferentes setores hospitalares. A coordenação entre Centro Cirúrgico, Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), Enfermarias e equipes multidisciplinares reduz cancelamentos, melhora a utilização dos recursos e contribui para uma assistência mais segura.

 

Outro aspecto destacado é o fortalecimento da tomada de decisão baseada em evidências científicas. Protocolos clínicos, discussão multiprofissional dos casos e utilização de indicadores assistenciais são apontados como instrumentos capazes de reduzir erros e aumentar a previsibilidade dos resultados.

 

A atenção ao paciente também deve se estender ao período pós-operatório, considerado um dos momentos mais críticos da jornada assistencial. Complicações como infecções, sangramentos e deterioração clínica exigem monitoramento contínuo e equipes preparadas para resposta rápida.

 

Além disso, especialistas defendem que a alta hospitalar seja acompanhada de orientações claras e acompanhamento estruturado, reduzindo o risco de complicações tardias e reinternações.

 

Para Omar Mejia, a melhoria contínua dos resultados depende da capacidade dos serviços de saúde de medir, analisar e corrigir os seus próprios processos.

 

“Não basta estabelecer protocolos. É necessário acompanhar indicadores, identificar oportunidades de melhoria e promover ajustes permanentes. A qualidade assistencial é construída diariamente”, conclui.

 

Com foco na segurança do paciente e na padronização das melhores práticas, o novo manual surge como uma ferramenta para apoiar hospitais na busca por melhores resultados clínicos, contribuindo para enfrentar um dos principais desafios da assistência cardiovascular: reduzir mortes evitáveis e ampliar a qualidade do cuidado.