Transplante renal pediátrico exige cuidado integrado antes e depois da cirurgia

Da terapia renal substitutiva ao acompanhamento após o transplante, assistência multidisciplinar considera crescimento, nutrição, desenvolvimento e qualidade de vida da criança

 

Em 2025, o Brasil realizou 586 transplantes pediátricos de órgãos sólidos, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Apesar do avanço em relação aos 555 procedimentos realizados em 2024, 50 crianças morreram enquanto aguardavam um órgão na lista de espera. Os dados evidenciam a dimensão do desafio enfrentado pela assistência pediátrica e reforçam a importância da doação de órgãos.

 

No caso do transplante renal, o período de espera representa um desafio adicional para crianças com doença renal crônica (DRC) avançada. Além do controle da doença e das terapias de substituição renal, as equipes precisam preservar aspectos fundamentais do desenvolvimento infantil, como crescimento, nutrição, frequência escolar, convivência social e bem-estar emocional.

 

A complexidade do transplante renal pediátrico não se limita ao procedimento cirúrgico. As características anatômicas da criança, o baixo peso, o calibre dos vasos sanguíneos e as particularidades das doenças que levam à insuficiência renal exigem planejamento individualizado e acompanhamento especializado.

 

O cuidado durante a espera

 

Na infância, a doença renal crônica pode estar associada a malformações congênitas do trato urinário, síndromes genéticas e outras condições que demandam acompanhamento prolongado. Enquanto a criança aguarda um órgão compatível, o objetivo da assistência é manter a estabilidade clínica e reduzir os impactos da doença sobre seu desenvolvimento.

 

Nesse contexto, modalidades de terapia renal substitutiva, como a diálise peritoneal domiciliar e a hemodiálise, podem ser utilizadas de acordo com as condições clínicas e a avaliação da equipe responsável. A escolha da estratégia terapêutica considera não apenas os aspectos médicos, mas também a rotina da criança e de sua família.

 

“O transplante não é um ponto final, mas o recomeço do desenvolvimento infantil”, explica o Dr. Charles Yea Zen Chow, nefrologista e coordenador do Programa de Transplante Renal do Sabará Hospital Infantil. “Quando otimizamos o tempo de espera e mantemos a estabilidade clínica com equipes integradas de nefrologia, cirurgia de precisão, nutrição e psicologia, devolvemos à criança o crescimento e a autonomia que a doença havia paralisado. Após o procedimento, os ganhos na qualidade de vida são imediatos e permanecem ao longo do tempo.”

 

Particularidades do transplante renal na infância

 

O transplante renal pediátrico apresenta desafios que vão além daqueles observados em pacientes adultos. As características anatômicas da criança, as causas da doença renal e a necessidade de acompanhar o crescimento ao longo dos anos exigem uma estratégia assistencial de longo prazo.

 

Malformações do trato urinário e síndromes genéticas podem produzir repercussões que permanecem mesmo após o transplante. Por isso, o cuidado começa antes da cirurgia, com avaliação clínica individualizada, e continua depois do procedimento, com acompanhamento médico, nutricional e psicossocial.

 

Outro momento importante é a transição para a adolescência. À medida que cresce, o paciente passa a assumir gradualmente responsabilidades relacionadas aos medicamentos, consultas e demais cuidados. A participação da família continua sendo fundamental para garantir a adesão ao tratamento e favorecer a construção da autonomia.

 

No Sabará Hospital Infantil, o Programa de Transplante Renal foi iniciado em 2017 e, segundo informações da instituição, já realizou 25 transplantes renais pediátricos com doadores falecidos. O atendimento reúne profissionais de diferentes especialidades médicas e áreas como psicologia, serviço social e nutrição, em uma abordagem integrada ao longo das diferentes etapas do tratamento.

 

Perguntas e respostas sobre o transplante renal infantil

 

Toda criança com doença renal crônica precisa de transplante?

 

Não. O transplante renal é uma das possibilidades de tratamento para crianças com doença renal crônica avançada. Dependendo da condição clínica, o paciente pode ser acompanhado com tratamento conservador ou precisar de terapia renal substitutiva, como a diálise. A indicação é individualizada.

 

A criança precisa fazer diálise antes do transplante?

 

Não necessariamente. Em determinadas situações, o transplante pode ser realizado antes do início da diálise. A decisão depende das condições clínicas e da avaliação da equipe responsável pelo acompanhamento do paciente.

 

O transplante renal é uma cura?

Não. O transplante é um tratamento para a doença renal crônica avançada. Após a cirurgia, a criança precisa manter acompanhamento médico por toda a vida e utilizar medicamentos imunossupressores para reduzir o risco de rejeição do órgão.

 

O que pode mudar na vida da criança depois do transplante?

Com a recuperação da função renal, pode haver melhora do crescimento e do ganho de peso, além da retomada gradual de atividades que estavam comprometidas pela doença e pelos tratamentos, como frequência escolar, brincadeiras e outras atividades cotidianas.

 

Por que o transplante renal em crianças exige cuidados específicos?

Além dos desafios técnicos relacionados ao tamanho dos vasos e às características anatômicas da criança, o tratamento precisa acompanhar as mudanças provocadas pelo crescimento. A adesão aos medicamentos e às consultas também depende inicialmente da participação dos responsáveis e, progressivamente, da própria criança.

 

Qual é a importância da família depois do transplante?

A participação familiar é fundamental. Os responsáveis ajudam a organizar consultas, exames e horários dos medicamentos, além de acompanhar a adesão ao tratamento. Conforme cresce, a criança deve assumir gradualmente maior participação nos próprios cuidados de saúde.

 

O transplante encerra o tratamento?

Não. O transplante inaugura uma nova etapa do cuidado. A criança continua realizando consultas e exames, utilizando medicamentos e sendo acompanhada pela equipe de saúde. O acompanhamento de longo prazo é essencial para preservar a função do órgão transplantado e a qualidade de vida do paciente.