Por Silvio Pollini (*)

Seria muito simples, a qualquer profissional da área, fazer uma “ode” à fascinante especialidade do cardiologista. Pois o foco está em um órgão único no corpo humano: o responsável pela ignição que nos mantêm em funcionamento; o motor que leva, por meio do sangue, nutrientes e oxigênio a todo o metabolismo, sendo um organismo “vivo” em todas as esferas de interpretação. Embora, claro, seja uma homenagem merecida, bem como a todas as profissões, o Dia do Cardiologista, celebrado nesta segunda (14), porém, deveria ser todo dia. E eu explico o porquê.

A Insuficiência Cardíaca, fase final de toda e qualquer cardiopatia, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), mata o mesmo tanto de pessoas – ou mais –, anualmente, do que a soma dos tipos mais graves de cânceres: estômago, colorretal, pulmão, mama, colo do útero e próstata. Uma condição que pode afetar gente de todas as idades (hoje, estima-se que haja mais de 25 milhões de pessoas no mundo com alguma cardiopatia, sendo ao menos 10% delas no Brasil) e cujas chances de surgimento após os 55 anos são de 30%.

Por ano, são registradas 400 mil mortes em decorrência de problemas cardíacos, o que corresponde a 30% dos óbitos do país, de acordo com o Ministério da Saúde. Porém, a impressão é a de que não é dada a devida atenção à gravidade da doença. No momento em que se informa a um paciente o desenvolvimento de um câncer, por exemplo, nota-se, costumeiramente, uma forte mobilização de todas as partes: unidade de saúde, corpo clínico, familiares, do próprio paciente e até mesmo do poder público, por meio do SUS (Sistema Único de Saúde), que fornece inúmeros tipos de tratamentos à população.

O mesmo fenômeno, no entanto, não ocorre quando da notícia de uma patologia cardiológica. Observa-se, claro, uma preocupação, mas que acaba negligenciada, inexplicavelmente, como corriqueira. É necessário, entretanto, que a população entenda toda e qualquer cardiopatia de maneira diferente de uma doença pontual, tratada com remédios para se voltar à vida normal em alguns dias.

Já há um enorme avanço científico no que tange a fármacos e intervenções desta natureza, cabendo a todos os envolvidos, incluindo o próprio poder público, oferece-los e trabalhar intermitentemente no sentido da conscientização, pois a prevenção dos fatores de risco é fundamental para se reduzir o seu desenvolvimento; e o diagnóstico precoce, somado ao tratamento certeiro, bem como sua adesão levada à sério pelo paciente e familiares, pode evitar mortes.

Em razão disso, muitas instituições de saúde ao redor do mundo estão implementando centros específicos para tratar as cardiopatias como realmente devem ser entendidas: por meio de uma jornada multidisciplinar do paciente, que começa pelos exames preventivos e, no caso de uma constatação positiva, por meio de tratamentos adequados e personalizados, incluindo acompanhamentos constantes por equipes que incluam não apenas cardiologistas, mas também angiologistas, nutricionistas e psicólogos, por exemplo, para se evitar problemas futuros de outras naturezas, mas diretamente conectados ao original.

No Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), por exemplo, essa visão tem sido concretizada natural e gradativamente, entendendo toda a importância do acolhimento acurado, continuado e dando um suporte humanizado, cujo cerne está, além na plena consciência da gravidade das cardiopatias, também nas inúmeras possibilidades de enfrentamento e seus consequentes resultados positivos.

Portanto, muito longe de soar arrogante e do intuito de elevar a especialidade apenas pelo viés médico, afirmar que o Dia do Cardiologista deveria ser todo dia é simplesmente para que ele seja assimilado como a consolidação de que cada pessoa, independente da cardiopatia, deve ter uma assistência constante, ininterrupta e cuidada com a importância exigida e merecida. Mais do que uma data importante para a especialidade em si, é um dia para todos aqueles que zelam e batalham diariamente a favor da vida, incluindo o próprio paciente.

(*) O Dr. Silvio Pollini (CRM 55327 – RQE 58740) é médico cardiologista e coordenador do departamento de cardiologia do Vera Cruz Hospital