Envelhecimento da população transforma perfil dos pacientes nos hospitais

Em 1940, uma pessoa que chegava aos 60 anos vivia, em média, mais 13,2 anos. Hoje, esse tempo chega a 22,6 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — um ganho de quase uma década em pouco mais de 80 anos. Nos hospitais, essa mudança já é percebida diariamente, com o aumento do número de pacientes com doenças crônicas, múltiplas comorbidades e necessidade de acompanhamento por diferentes especialidades.

 

No Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba (PR), referência em atendimento 100% realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), pacientes com 60 anos ou mais representaram 39,1% dos atendimentos em 2025. O número de pacientes nessa faixa etária passou de 60.627, em 2023, para 68.853 no ano passado, um crescimento superior a 13% em dois anos.

 

A faixa etária entre 41 e 59 anos também concentra uma parcela expressiva dos atendimentos, com 32,7% do total. Juntos, esses grupos respondem por 71,8% da assistência prestada em 2025, refletindo a crescente demanda por procedimentos e cuidados especializados.

 

O envelhecimento da população é percebido diariamente na rotina hospitalar. Segundo a clínica médica do Hospital Universitário Cajuru, Larissa Hermann, hoje não é incomum haver pacientes com mais de 85, 90 anos e até centenários internados ao mesmo tempo. “São pessoas que, em geral, apresentam maior fragilidade, convivem com diversas doenças e utilizam vários medicamentos, o que muda o tipo de cuidado que precisamos oferecer”, explica.

 

Além do tratamento da doença que motivou a internação, esses pacientes frequentemente precisam de acompanhamento de fisioterapeutas, nutricionistas, enfermeiros, fonoaudiólogos e outros profissionais para preservar a funcionalidade, reduzir complicações e favorecer a recuperação.

 

Esse modelo de assistência multidisciplinar integra os padrões de qualidade adotados pelo Hospital Universitário Cajuru, a única instituição do Paraná com atendimento exclusivamente pelo SUS certificada pela Organização Nacional de Acreditação (ONA) em nível 3, o mais alto reconhecimento em qualidade dos serviços de saúde no Brasil.

 

Segundo dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), do IBGE, os brasileiros com 60 anos ou mais representam uma parcela cada vez maior da população. Entre 2012 e 2025, essa participação passou de 11,3% para 16,6%, enquanto a parcela da população com menos de 30 anos diminuiu de 49,9% para 41,4%.

 

Esse cenário deve ampliar a demanda por serviços de saúde nos próximos anos, reforçando a necessidade de investimentos em prevenção, atenção primária, reabilitação e políticas de apoio às famílias e aos cuidadores.


Doenças crônicas lideram as internações

 

Segundo o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), cerca de 70% dos idosos convivem com pelo menos uma doença crônica, e quase três em cada dez têm duas ou mais. Entre as principais causas de internação estão doenças cardiovasculares, como hipertensão, insuficiência cardíaca, infarto e AVC; as doenças respiratórias, como pneumonia e DPOC; as complicações do diabetes; além de doenças neurológicas, infecções e quedas, frequentemente associadas a fraturas.

 

A presença de múltiplas comorbidades torna o tratamento mais complexo e prolonga o tempo de internação. Como consequência, cresce a necessidade de cuidados de enfermagem, reabilitação e atendimento especializado, além da maior demanda por leitos e por unidades de terapia intensiva (UTIs).

 

“Um paciente de 50 anos que sofre uma fratura de quadril geralmente recebe alta um ou dois dias após a cirurgia. Já um idoso pode permanecer internado por quatro ou cinco dias para recuperar as condições necessárias para receber alta com segurança, como estabilizar a hidratação, melhorar a nutrição, recuperar a força e voltar a caminhar”, exemplifica a médica.

 

Para responder a esse perfil de pacientes, o Hospital Universitário Cajuru implantou um protocolo específico para o atendimento de idosos com fratura de quadril, uma das principais causas de internação nessa faixa etária. O programa reúne equipes de ortopedia, clínica médica e outros profissionais em um modelo de acompanhamento multidisciplinar desde a admissão até a alta hospitalar, com foco na recuperação clínica e funcional. Segundo o hospital, a iniciativa já contribuiu para a redução do tempo de internação e da mortalidade desses pacientes.

 

Continuidade do cuidado após a alta

 

Para muitos idosos, o tratamento continua em casa. A recuperação costuma ser mais lenta, e parte desses pacientes deixa o hospital dependente de auxílio para atividades básicas, como alimentação, higiene, locomoção e administração de medicamentos. Segundo Larissa, garantir a continuidade da assistência após a alta é um dos principais desafios no cuidado com a população idosa, já que muitas famílias encontram dificuldades para oferecer esse suporte, seja pela falta de um cuidador, de equipamentos adequados ou de tempo para acompanhar a reabilitação.

 

Embora o SUS e a saúde suplementar ofereçam serviços de atenção domiciliar e acompanhamento pelas equipes da atenção básica, esse suporte é voltado principalmente à realização de procedimentos técnicos, como curativos complexos, administração de medicamentos e visitas de acompanhamento. Já os cuidados do dia a dia, como higiene, alimentação, troca de fraldas e auxílio na locomoção, continuam dependendo, na maioria das vezes, da família ou de um cuidador.

 

Para a médica do Hospital Universitário Cajuru, garantir esse cuidado após a alta é parte essencial do tratamento. “A internação é apenas uma etapa. A recuperação depende da continuidade do cuidado em casa, do apoio da família e da reabilitação. Quando isso não acontece, aumentam as chances de novas internações”, conclui.