Estudo brasileiro apresentado em congresso internacional mostra método mais eficaz para detectar risco de câncer do colo do útero 

Pesquisa indica que teste molecular identifica quase seis vezes mais infecções por HPV de alto risco do que o exame preventivo tradicional

 

Um estudo brasileiro que propõe ampliar o acesso ao rastreamento do câncer do colo do útero entre mulheres com dificuldade de acesso ao sistema público de saúde foi apresentado no Eurogin 2026, um dos principais congressos científicos do mundo dedicados ao vírus HPV e aos cânceres associados à infecção, em Viena, na Áustria, na semana passada.

 

A pesquisa, liderada pelo especialista em Citopatologia e Oncologia Molecular e pós doutor em infectologia pela Unifesp, Marco Zonta, mostra que a genotipagem molecular do HPV, tecnologia capaz de identificar tipos específicos do vírus, detectou quase seis vezes mais casos de risco do que o exame citológico convencional, conhecido como Papanicolaou. Os resultados fazem parte do projeto brasileiro TENDA+, iniciativa itinerante criada para levar exames e atendimento médico a mulheres que enfrentam barreiras de acesso aos programas regulares de prevenção.

 

O estudo analisou 753 amostras cervicais coletadas em mulheres entre 20 e 69 anos nas cidades satélites do Distrito Federal. Todas foram submetidas simultaneamente ao exame citológico tradicional e à análise molecular para detecção do HPV de alto risco. Os resultados revelaram que 16,6% das mulheres apresentaram infecção por HPV de alto risco detectada por teste molecular e apenas 2,92% tiveram alterações identificadas pelo exame citológico.

 

Segundo Marco Zonta, a diferença indica que métodos baseados em identificação do DNA viral podem antecipar a identificação de mulheres com maior probabilidade de desenvolver lesões precursoras e câncer cervical. “O modelo permitiu identificar um número expressivo de infecções sexualmente transmissíveis além da infecção viral, em uma população que normalmente permanece fora dos programas regulares de rastreamento”, completou.

 

O projeto TENDA+ foi desenvolvido para atender homens e mulheres com acesso limitado ao Sistema Único de Saúde (SUS), utilizando estruturas itinerantes, chamadas de “tendas”, instaladas em regiões com menor cobertura assistencial. “Além de ampliar o acesso ao diagnóstico, a estratégia busca reduzir filas e direcionar mais rapidamente para acompanhamento clínico aquelas pacientes com maior risco”, explica Marco Zonta.

 

Entre as amostras analisadas, foram identificadas alterações celulares compatíveis com diferentes graus de lesão, incluindo casos de alto grau, considerados precursores do câncer do colo do útero. A infecção por HPV foi detectada em 125 participantes, com maior incidência na faixa etária entre 40 e 60 anos, população que não foi coberta pela política de vacinação oferecida no SUS. Os tipos virais mais prevalentes foram HPV-16, associado a maior risco oncológico; HPV-68; HPV-66; HPV-58; HPV-39 e HPV-52.

 

A Organização Mundial da Saúde estabelece como meta eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública até 2030, estratégia baseada em vacinação, rastreamento ampliado e tratamento precoce de mulheres com lesão. “Iniciativas móveis associadas a testes moleculares podem ser especialmente relevantes em países com desigualdade de acesso aos serviços de saúde, como o Brasil. A apresentação no Eurogin coloca mais um projeto brasileiro, realizado pelo grupo de pesquisa, no debate internacional sobre novos modelos de rastreamento populacional e inovação em saúde pública”, completa o pesquisador.