Estudo da FIPE aponta que mudanças na escala de trabalho podem elevar custos do setor de saúde em até R$ 22 bilhões por ano e pressionar atendimento hospitalar
O debate sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho no Brasil ganhou força no Congresso Nacional entre 2025 e 2026, impulsionado por movimentos sociais, entidades sindicais e setores políticos que defendem maior qualidade de vida, saúde mental e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. As propostas em discussão variam desde a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas até modelos mais amplos, com limites de quatro dias de trabalho por semana.
Embora a pauta possua forte apelo social e encontre respaldo em discussões internacionais sobre bem-estar do trabalhador, especialistas alertam que determinados segmentos da economia possuem características operacionais que dificultam a implementação imediata das mudanças. Entre eles está o setor hospitalar, cuja estrutura depende de funcionamento contínuo, escalas permanentes e alta intensidade de mão de obra especializada.
É o que aponta o Relatório Executivo Final elaborado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), divulgado em maio de 2026. O estudo analisa os possíveis impactos da redução da jornada sobre o setor de saúde brasileiro e conclui que hospitais, clínicas e serviços assistenciais podem enfrentar forte pressão operacional e financeira caso não haja uma transição gradual e mecanismos específicos para atividades essenciais.
Segundo os dados da FIPE, o setor de saúde contabilizava, em 2024, cerca de 3,2 milhões de vínculos formais de trabalho. Desse total, aproximadamente 40,8% — o equivalente a 1,3 milhão de trabalhadores — atuavam em jornadas superiores a 40 horas semanais.
O estudo aponta ainda que o segmento hospitalar concentra o maior volume absoluto de impacto dentro da saúde. Apenas as atividades hospitalares absorvem 42,2% de todas as horas que deixariam de existir caso fosse instituído um teto semanal de 40 horas.
A maior incidência de jornadas prolongadas está entre técnicos e auxiliares de enfermagem, além de profissionais de recepção e apoio operacional — categorias compostas majoritariamente por mulheres, que representam 76,4% dos vínculos analisados.
Funcionamento contínuo impõe desafios específicos
Diferentemente de setores industriais ou administrativos, os hospitais operam de forma ininterrupta. Leitos, Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), Centros Cirúrgicos e Prontos-Socorros dependem de cobertura integral de equipes médicas, assistenciais e operacionais durante 24 horas por dia.
Nesse contexto, a redução da jornada individual não representa apenas diminuição de carga horária, mas a necessidade imediata de recomposição das escalas para manter o funcionamento dos serviços.
Outro fator apontado pela FIPE é a baixa possibilidade de substituição tecnológica em áreas assistenciais. O estudo ressalta que o cuidado direto ao paciente permanece altamente dependente da presença física de profissionais qualificados, especialmente na enfermagem.
Além disso, a pesquisa chama atenção para um possível efeito colateral da medida: o chamado “paradoxo dos múltiplos vínculos”. Segundo a análise, muitos profissionais da saúde acumulam empregos para complementar a renda. Assim, a redução da jornada em um vínculo formal poderia levar parte desses trabalhadores a buscar novos contratos para compensar perdas salariais, reduzindo o efeito esperado de descanso e qualidade de vida.
Cenários projetam aumento expressivo de custos
A FIPE simulou diferentes cenários para medir os impactos financeiros da redução da jornada no setor de saúde. No cenário mais crítico, a recomposição integral das escalas por meio da contratação de novos profissionais poderia gerar um aumento anual de até R$ 22,2 bilhões nos custos trabalhistas.
O estudo estima que seriam necessários aproximadamente 292 mil novos trabalhadores formais para suprir as escalas atualmente existentes.
Em outro cenário, baseado na ampliação do uso de horas extras, o impacto anual chegaria a R$ 11,5 bilhões. Já a reposição por meio da compra de horas adicionais no mercado elevaria os custos em cerca de R$ 7,7 bilhões por ano.
Por outro lado, a hipótese de não recomposição das horas trabalhadas poderia provocar queda de 4,3% na oferta total de horas de assistência, com potenciais reflexos sobre a disponibilidade de leitos, exames e atendimentos.
A FIPE também alerta para possíveis efeitos macroeconômicos, incluindo pressão inflacionária sobre os custos da saúde suplementar e impacto direto no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), estimado entre 0,20 e 0,58 ponto percentual.
Segundo o relatório, prestadores privados e filantrópicos — responsáveis por aproximadamente 95% dos vínculos afetados — seriam os mais pressionados financeiramente, sobretudo diante da limitação de reajustes em contratos com o Sistema Único de Saúde (SUS).
FBH defende debate técnico e transição gradual
Para a Federação Brasileira de Hospitais (FBH), o debate sobre qualidade de vida do trabalhador é legítimo e necessário, mas precisa considerar as especificidades da assistência hospitalar.
“A Federação Brasileira de Hospitais reconhece a legitimidade e o valor social das discussões que buscam ampliar o bem-estar e a qualidade de vida do trabalhador da saúde. No entanto, o ambiente hospitalar impõe uma realidade matemática e humana inflexível: a assistência ao paciente não pode ser pausada ou estocada”, afirma o presidente da entidade, Reginaldo Teófanes.
Segundo ele, uma implementação abrupta pode comprometer a sustentabilidade financeira das instituições e afetar diretamente a capacidade de atendimento da população.
“O estudo técnico elaborado pela FIPE demonstra que limitar a jornada sem uma transição planejada pode retirar milhões de horas semanais de cobertura médica e de enfermagem do sistema. O nosso maior temor é que a pressa legislativa resulte no fechamento de leitos, no aumento das filas de atendimento e em uma pressão financeira insustentável para os hospitais de pequeno e médio porte, que são o coração do atendimento no interior do Brasil”, acrescenta.
A FIPE também destaca que existem restrições severas de curto prazo no mercado de trabalho da saúde, especialmente em regiões com escassez de profissionais especializados.
“A necessidade de contratação de mais de 290 mil novos profissionais qualificados para suprir as escalas colidirá com a escassez regional de especialistas, gerando inflação de custos na cadeia de saúde suplementar e no financiamento público”, aponta o relatório.
Entidades defendem regras específicas
Diante do avanço das discussões no Congresso, entidades hospitalares defendem que qualquer mudança na legislação trabalhista leve em consideração a natureza essencial e contínua da assistência à saúde.
Entre as propostas apresentadas pelo setor estão a preservação de modelos já consolidados, como a escala 12×36, considerada estratégica para a previsibilidade operacional dos hospitais e para o descanso adequado de plantonistas.
As entidades também defendem uma implementação gradual das mudanças, permitindo adaptação financeira das instituições e ampliação progressiva da formação de profissionais no mercado.
Outro ponto considerado central é o fortalecimento da negociação coletiva, possibilitando que convenções regionais ajustem as regras conforme a realidade econômica e assistencial de cada localidade.
Enquanto o debate avança no Legislativo, especialistas avaliam que o desafio do país será encontrar um ponto de equilíbrio entre a valorização do trabalhador e a preservação da capacidade operacional de setores considerados essenciais para a população.
Por Felipe Nabuco
Equipe Visão Hospitalar