A relação entre Segurança Psicológica e ambientes hospitalares não é recente. Amy Edmondson, em sua obra “A Organização Sem Medo”, narra a pesquisa que a levou a mergulhar na temática: uma investigação sobre a relação entre equipes de diferentes hospitais americanos e erros médicos. “Os primeiros achados mostraram que os times mais eficientes eram também os que apresentavam mais falhas assistenciais. Contudo, essa era a ponta do iceberg, pois o que ficou evidenciado é que essas eram as equipes onde havia segurança para abordar erros”, explica a professora e pesquisadora Carla Furtado, do Instituto Feliciência.

Graças às pesquisas de Edmondson e de outros cientistas sociais, a Segurança Psicológica tornou-se imprescindível para a gestão de risco em hospitais. “Serviços de saúde seguros para os pacientes são também psicologicamente seguros para suas equipes. Nunca é demais destacar que a cultura do silêncio no ambiente hospitalar pode comprometer a integridade ou a vida de um paciente. Os profissionais devem apontar riscos e falhas e, para isso, precisam que o ambiente seja propício”, ressalta a enfermeira Itana Torres, da Consultoria Inspirar.

Além do Paciente – Com sua origem nos anos 1960, nos estudos de Edgard Schein – no MIT, a Segurança Psicológica ganha cada vez mais relevância. Se antes da pandemia a segurança do paciente era o principal motivador, hoje a saúde mental das equipes é uma das principais propulsoras. Dr. Fernando Akio, Médico do Trabalho e Gerente do Serviço de Saúde Mental da P&G, destaca que profissionais de assistência de todas as áreas estão enfrentando desafios de saúde mental significativos. “Antes que a memória da pandemia desapareça, medidas baseadas em evidências devem ser implementadas para proteger o bem-estar da força de trabalho. Temos o dever de encontrar maneiras de atender às suas necessidades psicológicas e melhorar seu bem-estar”, avalia o especialista.

Estudos científicos recentes apontaram a Segurança Psicológica como um dos principais fatores protetivos para as equipes de saúde na linha de frente da pandemia do COVID-19. Segundo Carla Furtado, precursora e professora da Certificação em Segurança Psicológica no Brasil e em Portugal, entre os fatores de maior impacto destaca-se o estilo da liderança imediata. “Comportamentos como falta ou excesso de comunicação e não estar disponível para atender e ouvir seu pessoal foram identificados como elementos de risco psicológico. Por outro lado, gestores que estimulam o comportamento de voz, em vez da adoção do silêncio intencional, estão atuando de maneira positiva para o bem-estar de suas equipes”, conclui.

CINCO PASSOS PARA CONSTRUIR UM AMBIENTE PSICOLOGICAMENTE SEGURO

(Carla Furtado, Instituto Feliciência)

  1. Segurança Psicológica não é uma norma, é um comportamento social. Por isso, não se estabelece da noite para o dia. Em primeiro lugar, o líder deve ser preparado e apoiado para implementar esta transformação de natureza cultural. E ele deve experimentar também um ambiente psicologicamente seguro com seus pares e o board.

  2. Tão relevante quanto preparar e apoiar a liderança é aferir o índice de Segurança Psicológica das equipes. Há diferentes assessments, sendo o de Amy Edmondson, com sete perguntas e já validado no Brasil, o mais usado mundialmente. Cada líder deve conhecer o índice de sua área como um dos sinais vitais de seu time. Novas aferições devem ser feitas à medida que a cultura se estabelece – a cada 3 ou 6 meses.

  3. Alinhado e com índice em mãos, o líder prepara o palco – expressão adotada por Edmondson para compartilhamento de expectativas com o time.  Esta fase prevê destacar o propósito da Segurança Psicológica e reforçar a interdependência dos membro da equipe.

  4. Após a preparação do palco, o líder convida o time à participação. É neste ponto que Edmondson destaca a relevância da humildade situacional enquanto habilidade de liderança. Líderes não têm todas as respostas, mas devem ter perguntas que fomentem o crescimento do time e escuta de qualidade para acolher as propostas.  Aqui também são estabelecidos processos, estruturas e ritos para fortalecimento da confiança e da comunicação.

  5. Quando os membros da equipe passam a contribuir, o líder deve estar atento e preparado para responder de maneira produtiva e não, defensiva. Deve expressar apreciação e gratidão. Deve, ainda, desestigmatizar a falha, em especial nos processos de aprendizado e inovação.