Por Simone Vicente Reis, CEO da FIDI – Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem

A inteligência artificial está presente em nossas vidas há muito tempo, e o setor que mais tem recebido investimentos neste sentido ultimamente é o da saúde. Em muitos países, entre eles o Brasil, a digitalização da saúde já vai muito além da telemedicina, com a IA sendo utilizada para aumentar a velocidade e a precisão de diagnósticos e triagens, como na detecção de tumores e lesões, no desenvolvimento de novos medicamentos e tratamentos personalizados para os pacientes. Os projetos de pesquisa, desenvolvimento e lançamento de novas tecnologias com funções cada vez mais avançadas para a área da saúde estão a todo vapor.

A transformação digital está revolucionando a rotina dos hospitais e unidades de saúde, oferecendo mais possibilidades aos profissionais e muito mais bem-estar aos pacientes e familiares. A tecnologia da informação leva mais praticidade e facilidade à gestão dos hospitais e clínicas, colocando à disposição dos gestores todas as informações necessárias para as tomadas de decisão.

Segundo o relatório Artificial intelligence index report 2022[1] da Universidade Stanford, no mundo todo foram investidos US$ 11,3 bilhões em pesquisa e inovação com inteligência artificial para a saúde em 2021 pelo setor privado, 40% a mais que no ano anterior. Nos últimos cinco anos, foram US$ 28,9 bilhões investidos, colocando o setor de saúde como o principal foco de investimentos privados em IA, superando setores mais tradicionais no uso de tecnologia da informação, como o financeiro e o varejo.

No mesmo sentido, um estudo recém-divulgado pela Market Research Future[2] prevê que o mercado de inteligência artificial deve superar os 12 bilhões de dólares até 2030, com crescimento anual acima de 50%.

Nos EUA, a Microsoft anunciou recentemente um programa de pesquisa clínica que utilizará a inteligência artificial para diagnosticar e tratar o câncer de pâncreas com mais eficácia. O programa vai empregar a tecnologia da empresa para analisar uma grande quantidade de dados de pacientes para desenvolver planos de tratamentos personalizados, de acordo com as necessidades de cada paciente.

E o Brasil também está incluído nesta revolução tecnológica da saúde, inclusive com atendimento gratuito pelo SUS. Um exemplo é o algoritmo de detecção de sangramento intracraniano, desenvolvido por uma empresa israelense, que é oferecido a alguns hospitais públicos de São Paulo e Goiás pela FIDI, instituição sem fins lucrativos fundada em 1986 por médicos professores integrantes do Departamento de Diagnóstico por Imagem da Escola Paulista de Medicina, atual Universidade Federal de São Paulo (DDI-UNIFESP), para promover o desenvolvimento científico e acadêmico.

O software utiliza um algoritmo de inteligência artificial para analisar e identificar padrões de imagem em tomografias computadorizadas que possam sugerir quadros graves, como o AVC hemorrágico. Desta forma, o médico pode analisar mais rapidamente os exames realizados e notificar uma possível emergência, permitindo que pacientes subam na fila de atendimento automaticamente, tendo um tratamento mais rápido em um momento em que cada segundo pode fazer a diferença.

A fundação ainda oferece aos hospitais o command center – uma central técnica associada a uma plataforma digital que possibilita a realização de exames de tomografia computadorizada e ressonância magnética a distância, em tempo real. Com esta tecnologia, a operação do equipamento na sala de exames é monitorada por uma equipe remota de tecnólogos em radiologia, que controlam de forma automatizada a execução dos exames. A tecnologia promove benefícios como redução dos custos, aumento da qualidade dos exames, mais rapidez e praticidade, menor exposição de colaboradores à radiação, redução no índice de reconvocação de pacientes, cobertura de folgas e ausências, entre outras vantagens.

Esta parceria é também exemplo de sucesso no trabalho conjunto entre as esferas pública e privada, sendo responsável por cerca de 12% de todos os exames de imagem realizados gratuitamente pelo SUS em todo o país.

Com a tecnologia e a expertise do atendimento na rede pública, instituições deste tipo passam a ser também uma opção para hospitais e clínicas particulares otimizarem seus centros de exames de imagem, reduzindo custos e maximizando as receitas.

Uma questão que não pode deixar de ser levantada é a do custeio do desenvolvimento e implementação da inteligência artificial. Nos Estados Unidos, a agência regulatória FDA já aprovou mais de 500 algoritmos para utilização na área da saúde, sendo 396 deles para a radiologia, mas o ritmo de adoção e implementação destas tecnologias é muito mais lento. Isso acontece principalmente porque os hospitais e clínicas precisam saber a relação custo-benefício das inovações, quanto elas vão economizar, qual será o ganho de produtividade e os benefícios para os clientes. Caso contrário, é muito difícil convencer os tomadores de decisão a realizar investimentos em uma área que já é bem atendida pelos profissionais sem a assistência de novas tecnologias.

O ponto principal nesse sentido é cada instituição encontrar as ferramentas certas de inteligência artificial e a melhor proposta de valor para suas necessidades. No exemplo da radiologia, a inteligência artificial pode ser utilizada para fazer uma triagem entre casos mais simples e mais complexos, além de detectar anormalidades que passariam despercebidas pelo olho humano, o que pode aumentar a eficiência da análise por parte dos profissionais de radiologia, que podem dedicar mais tempo aos casos mais complexos. A IA não pode ser apenas custo, precisa ser parte da solução.

Um hospital é um empreendimento complexo, cheio de variáveis, onde o tempo é sempre crucial, e seu funcionamento diário traz situações que precisam ser compreendidas, controladas e resolvidas rapidamente. Com a inteligência artificial, é possível ter uma visão geral dos diversos setores e processos e oferecer respostas rápidas e efetivas a situações como controle de acesso, engajamento de pacientes, automação de processos, gestão de leitos, sinergia entre os núcleos, logística e muitos outras.

Quando a tecnologia é utilizada para promover a saúde, e a união de esforços entre as esferas pública e privada faz com que esta tecnologia chegue até a população que mais precisa, quem ganha é a sociedade como um todo.

* Simone Vicente Reis é CEO da FIDI – Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem, organização social de saúde filantrópica que preza pela excelência e pelo atendimento humanizado, sendo referência em soluções para diagnóstico por imagem, com tecnologia de última geração e equipe altamente qualificada.