Psiquiatra aponta os gatilhos emocionais para o uso problemático do celular

Você já saiu sem o celular e sentiu que estava faltando uma parte de si? Isso é o que a maioria das pessoas conectadas sentem. Uma pesquisa realizada pela Global Web Index (GWI), empresa de segmentação de público, aponta que o usuário global típico da internet passa três horas e 39 minutos por dia utilizando a web em seu aparelho.

“Para saber se a pessoa tem um problema exagerado no uso de celulares é preciso definir se ela fica ansiosa, se sente desconforto caso não cheque o tempo inteiro se recebeu mensagens ou mesmo fica em alerta na expectativa do sinal de notificações”, é o que sinaliza a psiquiatra Maria Francisca Mauro ao pontuar sobre o uso problemático do telefone.

Diferentes estudos já ligaram esse excesso à maior incidência de casos de depressão, ansiedade e estresse crônico. Por isso, muitas pessoas, visando diminuir o tempo que passam conectados, adotam a estratégia de desligar as notificações. Isso pode surtir o efeito contrário do esperado, como sinalizam pesquisadores da Penn State University, nos Estados Unidos.

A partir da análise de dados coletados sobre o tempo de tela de 138 usuários de telefones, foi constatado que todos os participantes da pesquisa passam a utilizar mais os dispositivos quando deixam o aparelho em modo silencioso. Em média, eles “checavam” os telefones 53 vezes ao dia quando os alertas estavam ativados, frequência que passou para 98 vezes após a intervenção.

Vale ressaltar que pesquisas relacionadas à dependência ou vício, na psiquiatria, ainda são muito incipientes, como comenta Maria Francisca.

“Dentro dos critérios de avaliação psiquiátrica ainda não temos uma classificação que configure o vício. Em pesquisas, avaliações e evidências o termo mais utilizado é o ‘uso problemático do celular’. O que sabemos é que essas pessoas têm no uso do aparelho uma forma de manejar algumas emoções, seja para se sentirem menos entediadas e sozinhas, ou um sentimento de que estão inseridas socialmente através de interações nas redes, como se aquilo fosse uma medida de valor social. Precisamos também ficar atentos em como essas atitudes podem se associar com outros comportamentos, como vícios em jogos e compras online, por exemplo”, pontua a psiquiatra.

As evidências dos estudos do uso problemático do celular buscam diferenciar como este comportamento pode se aproximar e ao mesmo tempo se afastar das pessoas que sofrem com problemas relacionados às substâncias. “Diferentemente do álcool, cocaína e outras elementos de abuso, as dependências comportamentais não têm um ativo químico que atuará no cérebro. Portanto, critérios como abstinência e o efeito de tolerância (necessidade de usar maiores quantidades para obter o mesmo efeito), muito delimitados para abuso de substâncias, ficam mais difíceis de serem caracterizados dentro das dependências comportamentais”, explica Maria Francisca.

Em nível neurobiológico, sabemos que existe um “sistema de recompensa cerebral” (SRC) que tem como função estimular comportamentos que colaboram com a manutenção da vida, como sexo, alimentação e proteção. Quando o SRC é ativado, com a liberação do neurotransmissor dopamina, proporciona imediatas sensações de prazer e satisfação. No entanto, a psiquiatra comenta que ainda não se tem estudos que validem uma associação clara de ativação do SRC com o uso problemático do celular. Dentro do que este campo de estudos vem delimitando, são mais os quadros psiquiátricos e de comportamentos adoecidos que podem estar associados com quem tem uma relação ruim no uso do seu dispositivo móvel.

“Alguns marcadores nos mostram outros comportamentos mais validados, ou seja, quadros de adoecimento emocional, como depressão, ansiedade ou que configuram maior impulsividade. Pessoas que tendem a agir sem planejamento ou não se controlam mediante a ação, além de diagnósticos de transtorno de déficit de atenção e de hiperatividade, podem ter traços comportamentais do uso problemático do celular, em que a forma de comunicação se faz capaz de entrar na rotina de adoecimento”, explica a psiquiatra.

Hoje, o dispositivo também é visto como maior facilitador. Um fator de risco, por exemplo, são os jovens que estão mais expostos ao uso de mídias sociais, ao consumo de conteúdos de comida fitness, alguns comportamentos imagéticos que podem favorecer a abertura de casos de transtorno alimentar.

“Para além de apontar o uso do celular com consequências maléficas para saúde mental das pessoas, se faz necessário elas poderem conseguir ter mais conhecimento do uso da tecnologia e sua interferência em suas rotinas de trabalho, convivência com a família e amigos”, comenta.

Para diminuir a utilização do aparelho, a psiquiatra dá algumas dicas.

“Precisamos listar quais medidas podem ser simples na vida da pessoa. É preciso compreender quantas horas por dia você está consumindo conteúdo em seu aparelho, além de observar se está distribuído em trabalho ou lazer. Necessário se faz entender que ele não é uma companhia para você e seu uso não abre mão de que se dedique à atividades, como o  trabalho e a parte acadêmica, por exemplo. Outro ponto importante é observar o que você tem feito com o seu relacionamento interpessoal para que ele não seja ultrapassado por alguma interação via jogos, consumo de mídias sociais e outro elementos que acabam por retirar o diálogo, a conversa e as relações mais profundas, usando o celular como um artifício de fuga de uma rotina com relações interpessoais. Vale ressaltar que não é recomendado utilizar o aparelho de uma a duas horas antes de dormir devido à luminosidade, às informações e a gatilhos emocionais que podem dificultar o sono”, finaliza.

Psiquiatra Maria Francisca Mauro: Mestre em Psiquiatria pelo PROPSAM/IPUB/UFRJ. Psiquiatra associada da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), doutoranda em psiquiatria e saúde mental pelo PROPSAM/IPUB/UFRJ, representante discente da pós-graduação do IPUB/UFRJ junto à comunidade acadêmica geral da UFRJ e do IPUB. Desde 2008 atua como psiquiatra clínica e tem experiência em pacientes com quadros graves, como depressão, ansiedade, alterações de comportamento alimentar, transtorno bipolar do humor, esquizofrenia e quadros psiquiátricos ainda em investigação para definição diagnóstica.