Projeto usa células do próprio paciente para fabricar enxertos personalizados e pode reduzir em até 70% os custos de reconstruções ósseas; tecnologia ainda será testada em animais antes de chegar aos estudos clínicos
Reconstruções ósseas podem deixar de exigir a retirada de fragmentos do quadril ou do crânio do próprio paciente. Um grupo de pesquisadores brasileiros está desenvolvendo uma tecnologia capaz de produzir, em laboratório, enxertos ósseos personalizados a partir de células do próprio organismo, uma estratégia que pode reduzir o tempo de recuperação e diminuir significativamente os custos dessas cirurgias.
O projeto combina exames de tomografia computadorizada, bioengenharia de tecidos e cultivo celular para criar uma estrutura tridimensional que reproduz exatamente a área do osso perdida pelo paciente. Em vez de retirar enxertos de outra parte do corpo, o objetivo é implantar um tecido produzido especificamente para aquele defeito ósseo.
A tecnologia poderá beneficiar pacientes submetidos a reconstruções após acidentes, retirada de tumores, malformações congênitas e perdas ósseas decorrentes de doenças ou da própria Odontologia.
Segundo os pesquisadores, caso a técnica seja validada nas próximas etapas do estudo, os custos cirúrgicos poderão cair até 70%, enquanto o tempo médio de recuperação poderá ser reduzido de nove para quatro meses.
“O objetivo é substituir um procedimento altamente invasivo por uma solução personalizada produzida em laboratório. Isso reduz o trauma cirúrgico e pode acelerar a recuperação do paciente”, afirma Wilson Sendyk, cirurgião-dentista e coordenador do Programa de Pós-graduação (Doutorado e Mestrado) em Odontologia da Unisa.
O grupo já conseguiu fabricar a matriz tridimensional e realizar o crescimento celular sobre essa estrutura em laboratório. O próximo passo será avaliar o comportamento do enxerto em modelos animais, etapa obrigatória antes do início dos estudos clínicos em humanos.
Embora ainda não exista previsão para uso assistencial, especialistas consideram a engenharia de tecidos uma das áreas mais promissoras da medicina regenerativa, justamente por buscar alternativas aos enxertos retirados do próprio paciente.
A pesquisa é coordenada por Wilson Sendyk, professor da Universidade Santo Amaro (Unisa). Em 1988, ele realizou a primeira cirurgia com implante osseointegrado da América Latina, técnica que transformou a implantodontia ao permitir a fixação de implantes diretamente ao osso. Agora, quase quatro décadas depois, lidera uma nova linha de pesquisa voltada à reconstrução óssea personalizada.