Estudo conjunto mostra que 3% do orçamento federal da saúde foram destinados a tratamento oncológico

O estudo “Quanto custa o câncer?”, desenvolvido pelo Observatório de Oncologia e pelo movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), mostrou que nos últimos quatro anos, houve aumento de 400% no custo médio dos procedimentos de tratamento, como radioterapias e quimioterapias. O crescimento da população idosa, mais propensa a desenvolver câncer, só faz agravar o problema que implica equações econômicas para os gestores e expectativa de vida para os pacientes.

Não bastasse ter de lidar com os impactos físicos e emocionais do diagnóstico de câncer, o paciente enfrenta todas as questões estruturais e financeiras envolvidas. Fernando Medina, oncologista clínico do Centro de Oncologia Campinas, lembra ainda que boa parte dos procedimentos de vanguarda contra a doença não é disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou mesmo pela saúde suplementar.

“As chances de vida ou sobrevida de um paciente muitas vezes dependem de tratamentos não disponibilizados no SUS ou nos convênios, ou de medicações caras, acessíveis a poucos”, reforça. Medina explica que o custo do tratamento do câncer varia muito, dependendo do tipo, do estágio e das opções de procedimentos disponíveis. Também destaca que, em geral, o tratamento é mais caro nos Estados Unidos do que no Brasil, porém, o nível socioeconômico dos brasileiros impõe maiores limitações.

“O sistema público de saúde brasileiro oferece tratamento de câncer gratuito a todos os cidadãos. No entanto, existem algumas limitações na cobertura do SUS, e alguns pacientes podem precisar se deslocar para outras partes do país para ter acesso a certas especialidades. Além disso, a qualidade do atendimento oncológico no SUS varia conforme a região do país”, observa Medina.

O estudo cita que as despesas federais na área de saúde no ano de 2022 ultrapassaram R$ 136 bilhões. Deste total, quase R$ 4 bilhões (perto de 3%) foram destinados a tratamento oncológico, seja ambulatorial (77%), cirúrgico (13%) ou internações (10%). No comparativo entre 2018 e 2022, um procedimento que custava R$ 151,33 subiu para R$ 758,93.

Chama a atenção o fato de que, embora as despesas com câncer na esfera federal tenham aumentado, o número de procedimentos ambulatoriais caiu drasticamente: foram 15 milhões em 2018 e 4 milhões em 2022.

A principal estratégia para enfrentar os custos do câncer, acredita Medina, é a detecção precoce da doença, o que implica, além de melhores expectativas de sucesso do tratamento, menores gastos. O motivo, esclarece, é que os valores necessários para custear os procedimentos aumentam à medida que cresce a gravidade da doença.

Em um período inicial do câncer de mama, o tratamento com quimioterapia, por exemplo, custa R$ 134,17 por sessão, conforme números médios de referência apontados no estudo “Quanto custa o câncer?”. Se o tumor for considerado avançado, com metástase, o valor chega a R$ R$ 809,56. Tomando por base casos de câncer colorretal, a internação hospitalar sai por R$ 924,33, a de UTI, R$ 3.079,41, e a cirurgia, R$ 6.533,25.

“Os custos dependem de diferentes fatores, mas quanto mais adiantada a doença, mais amplos e caros serão os procedimentos. O fato é que a crescente complexidade dos tratamentos, em razão do surgimento de novos e modernos tratamentos, pode ser um fardo financeiro muito grande para os pacientes e suas famílias”, atesta o médico.

 Soluções

O câncer é a segunda maior causa de morte no mundo. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), do Ministério da Saúde, são esperados 704 mil novos diagnósticos no Brasil a cada ano do triênio 2023/2025. Ainda de acordo com o Inca, cerca de 17% dos óbitos no Brasil ocorrem em decorrência de câncer, o que significa uma média anual de 200 mil mortes.

Há uma série de iniciativas que podem ser adotadas para combater o alto custo do tratamento. Medina elenca as campanhas preventivas como uma das principais ações, sobretudo por representarem a possibilidade de ampliação do número de diagnósticos precoces e melhores prognósticos, que acarretarão tratamentos mais simples, eficientes e menos onerosos.

O oncologista do COC também destaca os esforços para o barateamento dos tratamentos. Entre eles, o acordo de cooperação técnica firmado entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) para desenvolvimento de novos produtos e incorporação de tecnologias mais acessíveis.

“O melhor tratamento contra o câncer é a prevenção. E também é o mais barato. Orientar as pessoas sobre a doença, como evitá-la e oferecer meios para o diagnóstico precoce são a solução mais efetiva que temos em mãos”, finaliza Fernando Medina.