Ela não deve acontecer apenas no corpo, mas principalmente na mente e precisa ser compreendida e aceita pelo indivíduo

Por Cid Pitombo, médico cirurgião especialista em tratamentos de obesidade e cirurgia bariátrica

Que tal começar o ano com um pensamento de mudança e de hábitos que possam ser considerados mais saudáveis?  A ideia não é buscar uma fórmula que ofereça bons resultados, mas que possam transformar sua vida e seu bem-estar. E vamos deixar uma coisa bem clara: padrão não existe!

Cada organismo tem a sua genética que determina que a caloria ingerida se acumule em mais gordura. Às vezes, pessoas diferentes comem a mesma quantidade de comida e a mesma alimentação, mas engordam de forma diferente, mostrando claramente que a absorção é diferente. Gordura no organismo não é resultado apenas de má alimentação.

Os índices de obesidade e sobrepeso, de acordo com a pesquisa Vigitel realizada pelo Ministério da Saúde, não param de crescer no país. Um assunto que ainda é tratado com muito preconceito e estigma. Ser obeso é estar doente e como qualquer doença precisa ser tratada e compreendida. Quem adoece precisa de um olhar mais humanizado e o apoio da família, seu ciclo social e da sociedade em geral.

A transformação só deve ser iniciada a partir de uma pesquisa criteriosa. Tomando o cuidado com tecnologias não autorizadas e buscando sempre um profissional qualificado e autorizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Não existe mágica, quando o assunto é saúde.

Como especialista no tratamento da obesidade e cirurgião bariátrico, afirmo que o prazer da boa alimentação deve iniciar ainda na infância para virar um hábito. Boa comida é simples: arroz, feijão, legumes, verduras e frutas, mas boa parte da população brasileira vem perdendo o acesso à alimentação básica.

Oito em cada dez brasileiros, segundo a pesquisa Vigitel 2021, estão obesos ou com sobrepeso. O consumo de hortaliças esteve presente para apenas 22% dos entrevistados e os ultraprocessados atingiram o patamar de 20%. As doenças relacionadas à obesidade são responsáveis por cerca de 4,7 milhões de mortes em todo mundo.

Números da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) indicam que nos últimos cinco anos foram realizadas 311.850 cirurgias bariátricas pelos planos de saúde e no SUS (Sistema Único de Saúde). Destas 81% foram realizadas pelos planos de saúde, segundo dados da Agência Nacional de Saúde (ANS) e 4,7% foram feitas de forma particular.

O Brasil está entre os países que mais opera no mundo, mas na medicina privada. O volume de cirurgias é bem grande, mas não atinge o sistema público como um todo. Há vários estados que não ofertam bariátricas pelo SUS. Uma população que sofre com a má alimentação e não consegue acompanhamento multidisciplinar.

Cuidar da saúde mental é fundamental também para quem busca um tratamento e a cirurgia bariátrica. A avaliação psicológica pode até contraindicar o procedimento. Em alguns casos é possível reverter essa dificuldade. Mas dependendo da saúde mental, a cirurgia pode não ser realizada.

O Brasil liderava o ranking global de casos de ansiedade antes da pandemia de Covid-19, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ganhava também nos números de incidência de depressão entre os países da América Latina. Depois de dois anos de enfrentamento do isolamento, perdas, medo e insegurança os transtornos mentais vão aumentar ainda mais. Como a obesidade, que atinge 22,35% da população brasileira contra 20,27%, em 2019.

Outros sinais acompanham o indivíduo com obesidade: transtornos como ansiedade e compulsão alimentar, mas que não podem ser confundidos.

A ansiedade pode ser interpretada como um mecanismo de defesa para o indivíduo em situações que inspiram tensão, expectativa ou medo. É uma emoção caracterizada por um estado de agitação, que vem acompanhada, muitas vezes, por nervosismo, angústia, preocupação excessiva, inquietação, tensão muscular, problemas para concentração e a temida compulsão alimentar.

Se os sinais da ansiedade ultrapassam um nível saudável, afetando a saúde física e mental do indivíduo, ela se torna um distúrbio chamado Transtorno de Ansiedade Generalizada e deve ser acompanhada de perto por profissionais especializados.

O gatilho da compulsão alimentar surge acompanhado de sintomas como ansiedade, estresse e depressão. Cria-se uma necessidade para comer sem apetite e em excesso. É um distúrbio químico, derivado de um desequilíbrio nos mecanismos de fome e saciedade, onde a pessoa perde o controle do que consome sem perceber, o leva ao ganho de peso, afeta a autoestima e aumenta todo o estresse e a ansiedade.

Na prática, o que podemos fazer para melhorar a qualidade de vida? Renunciar aos processos que abrem caminho para a maioria das doenças que podem ser adquiridas ao longo da vida como alergias respiratórias e dermatológicas, inflamações intestinais, artrites e, claro, a obesidade, entre outras doenças.  O sedentarismo, a má alimentação, poucas horas de sono e o estresse do dia a dia são exemplos de práticas que contribuem para o aumento dos processos inflamatórios do organismo.

Mudanças simples nos hábitos de vida auxiliam nosso corpo a se proteger dos ‘invasores’ externos.  A boa notícia é que somado ao consumo de alguns alimentos ajudam nosso corpo a se proteger. Quer começar a transformação na sua vida? Foque numa alimentação mais equilibrada para manter hábitos mais saudáveis.