Neurocirurgiões chamam a atenção para os cuidados necessários com a estrutura óssea que protege o sistema nervoso central do organismo

No Brasil, 21,6% da população adulta tem dor crônica na coluna. Ainda segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde 2019, a prevalência é maior em mulheres, obesos, hipertensos, fumantes e entre aqueles que fazem atividade física doméstica pesada, que têm menor escolaridade e que vivem na zona rural.

Apesar de muitas pessoas geralmente buscarem a ortopedia para tratamento das doenças da coluna, a neurologia e a neurocirurgia também se especializaram, ao longo do tempo, para diagnosticar e tratar as patologias da coluna vertebral, especialmente aquelas que envolvem um comprometimento do sistema nervoso. “Dentro da coluna vertebral, há a parte nobre do sistema nervoso, a região de passagem dos neurônios e a origem de todas as raízes e nervos, desde abaixo do crânio para todo o corpo”, explica o neurocirurgião André Borba, coordenador da equipe de Neurocirurgia e de Dor do Hospital Anchieta, pertencente à Kora Saúde.

Alguns exemplos de doenças da coluna que comprometem o sistema nervoso são hérnia de disco, que causa compressão neural; as fraturas, pois podem comprimir a medula; e os tumores na coluna, que causam dor e, em determinados casos, provocam paralisia de membros. 

“A dor da coluna é processada no cérebro e, para chegar lá, passa pela medula e nervos. Quando se trata de uma manifestação do sistema nervoso, como dor, perda da força em membros, alterações sensitivas (como formigamentos), entre outras, o neurologista ou o neurocirurgião devem ser procurados”, afirma o neurocirurgião Bernardo Drummond Braga, chefe do Departamento de Coluna do Instituto de Neurologia de Goiânia.

Dores e doenças

De acordo com o dr. André Borba, boa parte dos pacientes comparecem ao consultório para tratar a dor na coluna vertebral, problema que vai de uma pequena dor incômoda até aquela que faz travar a coluna. “Existem outras condições, mais eventuais, como tumores da coluna vertebral, que precisam de cuidados específicos, e doenças neurológicas como a esclerose múltipla, caso em que a neurologia clínica se faz essencial desde o início do tratamento”, ressalta o médico do hospital Anchieta.

O neurocirurgião acrescenta que uma minoria de casos precisa de tratamentos mais invasivos e sérios. “A maioria das pessoas que procura o consultório tem como causas básicas de dores na coluna as alterações musculares e dos tendões”, cita o dr. André Borba.

No mesmo sentido, o dr. Bernardo Drummond Braga afirma que a “doença” mais frequente no consultório de um neurocirurgião de coluna é o sedentarismo. Segundo ele, em seguida, estão doenças como a fibromialgia e o próprio envelhecimento natural da coluna, chamado de espondilose cervical ou lombar. “Dores musculares relacionadas à postura, movimentos repetitivos, transtornos de ansiedade e transtornos depressivos com componente miofascial fecham a lista dos principais problemas de coluna que frequentemente estão nos consultórios”, informa o médico do Instituto de Neurologia de Goiânia.

Hérnia de disco

O dr. Bernardo Drummond Braga chama a atenção para a hérnia de disco lombar. “Essa não é a doença da coluna mais frequente, mas é aquela com maior indicação cirúrgica”, diz ele. Segundo o médico, a “hérnia de disco verdadeira” é aquela em que a maior parte da dor se concentra na perna, no caso de uma hérnia lombar, ou no braço, em casos de hérnias cervicais.

As cirurgias de hérnia de disco trazem resultados animadores, com resolução rápida da dor para os pacientes. Além disso, a técnica cirúrgica atual é pouco invasiva. “Hoje as cirurgias são realizadas com endoscopia, através de um pequeno furo na pele, ou por microcirurgia, com incisão menor que 2 centímetros”, explica o neurocirurgião.

Já quando a hérnia de disco for parte de um desgaste ainda maior da coluna, outras medidas podem ser necessárias. “Pode ser uma infiltração guiada por ultrassom ou RX, para aplicar medicação em pontos chave. Mas, a depender da dor e do comprometimento neurológico, há indicação de intervenção maior, como descompressão e até artrodese de partes da coluna”, acrescenta o dr. André Borba. 

Tratamento

Classicamente, de acordo com o dr. André Borba, os fatores que levam os indivíduos a terem problemas da coluna são de ordem genética, postural, ponderal (peso) e condicionamento físico. Deve-se destacar alguns pontos: 

  • Carga genética. “Muitas vezes, há um princípio genético que a gente não consegue controlar”, cita o neurocirurgião, explicando que essa pode ser a origem de algumas pessoas terem processo degenerativo precoce ou intenso; e doenças que envolvem inflamação das articulações, como as reumatológicas, por exemplo.
  • Síndrome de hipermobilidade. Essa causa também possui base genética na sua maioria. “Isso ocorre quando a pessoa tem uma movimentação acima do normal nas articulações, o que acaba por sobrecarregar inclusive a coluna, causando, com frequência, crises de dores, degeneração precoce e outros problemas não só da coluna, mas das articulações em geral”, explica o médico. 
  • Má postura, excesso de peso e falta de condicionamento físico. “Essas são as causas de mais de 80% das dores na coluna”, afirma o médico. 

A melhor maneira de se prevenir contra problemas de coluna, de acordo com o neurocirurgião, é manter um peso adequado; ter uma atividade física regular, com alongamento e reforço muscular; e cuidar da postura, para evitar sobrecargas e desgastes precoces ou assimétricos da coluna vertebral.

O dr. Bernardo Drummond Braga destaca que o foco da atividade física deverá ser na frequência e não na intensidade. “Alternar dias de fortalecimento muscular com atividades aeróbicas é o ideal, porque a musculatura irá funcionar como um amortecedor para a coluna, e o exercício aeróbico promoverá liberação endógena de neurotransmissores, com equilíbrio de dopamina, noradrenalina, endorfina, citocinas, que funcionarão como um anti-inflamatório natural”, explica o neurocirurgião.

Problemas na coluna em dados

  • Problemas de coluna são uma das causas principais de pedido de aposentadoria e afastamento do trabalho no mundo.
  • No Brasil, estima-se que 50% a 60% da população irão passar por algum problema de dor na coluna em algum momento da vida.
  • Quando se fala em tratamento crônico dessa condição, calcula-se que cerca de 5 milhões de pessoas sejam afetadas por esse problema a cada ano. 
  • Em média, 10 a 15 dias de trabalho, por ano, são perdidos pelas pessoas que sofrem de dores na coluna.
  • No mundo, estima-se que até 80% das pessoas do terão algum episódio de dor em algum momento da vida.